Velório de mortos por atiradores começa na Arena Suzano, no Parque Max Feffer

5 mil pessoas já passaram na Arena, que deve receber público maior durante o dia. Radial tem ônibus de graça desde o Terminal Suzano

 

PAULO QUARESMA – DO CORREIO INDEPENDENTE *  Desde as7h da manhã desta quinta-feira (14/03) cntenas de pessoas já estão na Arena Suzano, no Parque Max Feffer, em Suzano, onde acontece o velório coletivo de seis das oito vítimas de Guilherme Taucci Monteiro, 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, 25 – os  dois atiradores, que invadiram a Escola Estadual Raul Brasil, e mataram sete pessoas – duas funcionárias do estabelecimento e cinco alunos. Antes eles já haviam matado o tio de Guilherme, em uma locadora de veículos próximo da escola.

 

Esta quinta-feira feira na cidade será um dia de despedidas. Estão previstos velórios e enterros, enquanto a população de Suzano – e da região – ainda se questiona do por quê do massacre na Raul Brasil, em que morreram dez pessoas e há 11 feridos.

 

Como o município de Suzano está em luto oficial de três dias, muitos estudantes do próprio Raul Brasil e de outras escolas estaduais e de particulares devem ir para o local. Mais cedo, transportadores de estudantes perfilaram suas vans ao lado da escola e fizeram uma carreata pela cidade

 

O ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, o prefeito de Suzano, Rodrigo Ashiuchi, e outras autoridades estão no local. O clima de desolação e tristeza toma conta do local.

 

A empresa Radial Transporte disponibiliza ônibus nesta quinta-feira (14/03) saindo do Terminal de Suzano para a Arena, onde acontece o velório das vítimas da tragédia. A passagem não terá custo para a população. A empresa expressa solidariedade aos familiares, amigos das vítimas e moradores de Suzano. Todos os carros estão adesivados com o simbolo do luto, a fita preta.

 

De acordo com a Prefeitura de Suzano, até o momento, 5 mil pessoas passaram pelo local, segundo a Secretaria de Segurança Cidadã de Suzano.

Segue o nome das vítimas veladas:
– Marilena Ferreira Vieiras Umezo (funcionária)
– Eliane Regina Oliveira Xavier (funcionária)
– Kaio Lucas da Costa Limeira (estudante)
– Claiton Antonio Ribeiro (estudante)
– Samuel Melquiades Silva de Oliveira (estudante)
– Caio Oliveira (estudante)

 

O corpo do aluno Douglas não está sendo velado na Arena Suzano, mas, em uma igreja evangélica no Parque Maria Helena, por escolha da família.

 

Cerca de 50 profissionais da rede municipal de saúde estão prestando atendimento no local do velório, entre médicos psiquiatras e clínicos gerais, psicólogos, terapeutas ocupacionais, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e assistentes sociais.

 

Está programado para 14h um ato ecumênico no local do velório.

 

Todos os sepultamentos, com exceção da Marilena, ocorrerão em jazigos coletivos do Cemitério Municipal São Sebastião (Rua Cássia Francisco, 651 – Sítio São José, Suzano).

 

O sepultamento do corpo da Marilena não ocorrerá hoje porque um dos filhos dela chegará apenas amanhã da China; a família não divulgou o local do enterro.

 

Os cortejos começam às 15 horas, com intervalos de 30 minutos entre eles. Cada cortejo sairá com escolta de uma viatura da Guarda Civil Municipal (GCM) e apoio das equipes de trânsito da Secretaria de Transporte e Mobilidade Urbana. Também será cedido um ônibus escolar para os parentes e amigos das vítimas.

 

Segue a ordem dos cortejos:
– 15 horas – Samuel
– 15h30 – Kaio Lucas
– 16 horas – Caio Oliveira
– 16h30 – Eliana
– 17h00 – Marilena
– 17h30 – Claiton

 

Por enquanto, está sendo controlada a entrada das pessoas na quadra de esportes da Arena, para evitar tumultos. Isso porque o movimento das pessoas que não são das famílias enlutada é muito grande. Elas ficam isoladas por uma grade que as separa dos familiares, que são os únicos próximos aos corpos.

 

Solidariedade e as reflexões da tragédia

 

Além das famílias, estudantes da escola, pais de alunos e vizinhos estão no local. A confeiteira Rosália Vieira de Melo, 39 anos, era amiga da coordenadora pedagógica Marilena Ferreira Umezo, 59 anos. “Éramos irmãs de igreja. Cheguei em Suzano em 1998 e pouco tempo depois já nos conhecemos na igreja. Ela era voluntária e trabalhava muito nos Encontros de Casais com Cristo com a gente. Era ministra da Eucaristia. Muito querida por todos nós. É uma grande perda, como profissional e também como voluntária”, relembrou.

 

O estudante Thales Medeiros, 20 anos, é um dos sobreviventes do atentado. Aluno do 3° ano do Ensino Médio, ele estava no refeitório quando os atiradores chegaram e se juntou ao grupo de pelo menos 50 pessoas que se esconderam na despensa da cozinha. Ele mora próximo ao estudante Claiton Antonio Ribeiro, 17 anos, e fez questão de abraçar a família do colega morto. “Ele sempre foi humilde, respeitador. Sempre na dele, nunca arrumou confusão”, descreveu.

 

Thales disse que a escola é conhecida por manter um clima tranquilo entre os estudantes. “É muito bom. É uma escola que é difícil ter confusão. Quando tem, a diretora, as tias, acalmam, apaziguam. É um clima muito bom, familiar mesmo. Eu mesmo já tive muito problema na escola, era bagunceiro, e agora estou mais tranquilo. A escola me ensinou isso”.

 

Sobre o retorno para a escola, Thales disse que sabe que será um momento de muita tristeza. “Mas temos que voltar. Fazer a alegria da escola como era antes. Aos poucos nós vamos retomando o nosso caminho”.

 

Já para a estudante Juliana Souza, 14 anos, a volta às aulas ainda não é uma certeza. Ela estuda no centro de línguas, que funciona na Escola Raul Brasil, há cerca de um mês. “Sempre foi uma escola ‘da hora’. Sempre quis mudar para lá, porque todo mundo se dá superbem. Ninguém esperava que isso fosse acontecer”, disse. Ela estava na sala de aula quando começaram os tiros. “Eu acho que ninguém vai querer mais voltar para lá. Foi um momento de desespero. Todo mundo em pânico. Isso vai ficar na cabeça. Quando saímos da sala, vimos eles [atiradores] mortos e também os outros alunos”, relembrou a jovem que foi ao velório acompanhada da mãe Cristina de Souza.

 

Também estiveram no velório o ministro da Educação, Ricardo Vélez, que cumprimentou as famílias e conversou com o secretário estadual da Educação, Rossieli Soares da Silva, e com o prefeito de Suzano, Rodrigo Ashiuchi.

Solidariedade

O azulejista Alberto dos Santos, 53 anos, de Guarulhos, levou oito flores para homenagear as vítimas dos dois atiradores, ex-alunos de 17 e 25 anos, que invadiram a escola e disparam contra estudantes e funcionários, matando oito pessoas. “Faço esse gesto porque sou pai e, como pai, precisamos olhar para os nossos filhos. O nosso jardim está mais triste”, disse, emocionado.

 

O motorista de transporte escolar Vaninho Clemente da Silva, 44 anos, contou à Agência Brasil que estava trabalhando, levando crianças para a escola, quando soube da notícia pelo rádio. “Ali já ficamos consternados. Tristes. Nós que somos da área, transportamos as crianças todos os dias, e acontece um episódio desse bem próximo da gente, é muito difícil”.

 

Crime foi meticulosamente organizado

Para a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, o crime foi meticulosamente organizado. Os jovens atacaram, primeiro, Jorge Antônio Moraes, tio de um deles, em uma locadora. Depois, roubaram um carro e saíram em disparada na direção da escola. No colégio, eles entraram e partiram para os ataques.

Segundo as investigações, os atiradores utilizaram um revólver calibre 38, uma besta (espécie de arma antiga que se assemelha ao arco e flecha) e uma machadinha. Eles só pararam quando se viram cercados pela polícia e sem saída. Neste momento, um dos jovens atirou no outro e depois se matou.

Histórico

De acordo com os policiais, Guilherme Taucci Monteiro e Luiz Henrique de Castro estudaram no colégio, que se transformou em palco da tragédia. Eles moravam perto de uma das vítimas, que sobreviveu, e próximo à escola.

O secretário de Educação de São Paulo, Rossieli Soares, disse que Guilherme Monteiro estudou no colégio até 2017 e não havia registro de mau comportamento ou qualquer tipo de dificuldade. Mas, no ano passado, ele abandonou o colégio e estava sendo acompanhado para retornar à sala de aula.

 

Mobilização a partir desta sexta, 15

De acordo com o comunicado oficial da decretação do luto em Suzano por três dias, nesta sexta-feira (15/03), os educadores se reunirão para definir as ações que serão tomadas junto aos 26 mil alunos das escolas públicas municipais, a partir da próxima segunda-feira (18/03), para conscientizar e combater a violência e o assédio moral, visando estabelecer uma cultura de paz.

O trabalho será realizado com equipes de psicólogos. Eles irão atuar junto aos colegas das vítimas e familiares, bem como estudantes das demais unidades das redes estadual e municipal, de forma continuada.

 

*Colaboraram Letícia Albuquerque e Agência Brasil