Ricardo Boechat, jornalista da Band, morre em queda de helicóptero em SP

PAULO QUARESMA – DO CORREIO INDEPENDENTE * – O jornalista, radialista e apresentador Ricardo Eugênio Boechat, 66 anos, era um dos ocupantes do helicóptero que caiu no início da tarde desta segunda-feira (11/02) sobre um caminhão em um trecho do acesso à Rodovia Anhanguera, km 22 e no quilômetro 7 do Rodoanel, sentido Castelo Branco, próximo ao pedágio, no Jabaquara. O veículo acabava de passar pelo Sem Parar da praça de pedágio. O piloto também morreu.

Ao cair sobre o caminhão, a aeronave, fabricado pela Bell Helicopter. prefixo PT HPG. acabou explodindo. O motorista do caminhão sofreu ferimentos leves.

Logo que surgiu a notícia do acidente, ainda não havia a confirmação de que Boechat, âncora do Jornal da Band, era uma das vítimas fatais. Ele e o piloto foram carbonizados. O motorista do caminhão foi socorrido por uma equipe de resgate da concessionária CCR. De acordo com o site da Band, Boechat estava voltando de Campinas, onde tinha ido dar uma palestra.

O piloto – Ronaldo Quattrucci – tentou, segundo os bombeiros, tentou um pouso de emergência, mas acabou batendo de frente na lateral direita de um grande caminhão que trafegava pela estrada.

O fogo foi extinto pelos bombeiros, que mandaram para o local 11 viaturas e mais um helicóptero Águia da Polícia Militar.

O caso foi apresentado ao 46º Distrito Policial (em Perus) e os corpos levados ao Núcleo de Antropologia do Instituto Médico Legal (IML) Centro.

 

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Mulher tenta salvar motorista do caminhão

Uma mulher, que testemunhou o acidente, diz que viu o momento quando o passageiro pulou da aeronave e tentou pedir ajuda, mas acabou morto. Em entrevista à Record TV e TV Brasil, Leiliane Rafael da Silva- que estava na garupa da motocicleta do marido quando o helicóptero caiu, deu detalhes. “O helicóptero vinha reto, todo bonitinho, parecia que ia pousar mesmo”, disse à emissora. “Eu vi uma pessoa do lado direito do helicóptero, quando já estava prestes a pousar, pulando. Foi na hora que a carreta veio, chocou com helicóptero, que rodou e despedaçou. Foi nessa hora que caiu em cima da pessoa que pulou”, diz a testemunha, identificando Boechat.

Segundo ela contou aos repórteres, Leiliane acreditava que o jornalista teria sobrevivido, porque ainda teria erguido o braço quando estava no chão. No entanto, o pedaço do helicóptero em chamas caiu em cima dele, o que teria o matado.

Logo após o acidente,e por pelo menos duas duas horas, foram feitas interdições parciais na pista do Rodoanel, sentido Perus, e na Anhanguera, sentido Jundiaí. A concessionária CCR Rodoanel informou que os motoristas podem acessar a Anhanguera, no sentido São Paulo, e pegar um retorno no quilômetro 18 para seguir para o interior.

Por uma ironia do destino, em sua última participação no programa que foi ao ar na manhã desta segunda-feira (11/02) na Rádio Band News FM – antes de ir a Campinas para a palestra –  Ricardo Boechat analisou a “sucessão de tragédias no Brasil” , como Mariana, Boate Kiss, Brumadinho, Ninho do Urubu, entre outras.

Com contundência, ele repercutiu uma reportagem de O Globo, com uma lista de dez casos trágicos ocorridos no país. ” Temos uma velha tradição de deixar pra lá e tocar adiante. A negligência e a impunidade marcam as tragédias no país. O jornal mostra 1764 mortes em situações que são de responsabilidade do estado, no campo da prevenção e da fiscalização, do legislador, do judiciário. E quando a gente chora, sofre, lamenta o fato que ocorreu ontem, a gente parece estar anestesiado, ou gostar de anestesia que nos faz esquecer desse fato tão logo surge o fato de amanhã, que terá o mesmíssimo tratamento”, criticou.   (Assista abaixo)

E a ironia do destino foi o que também tirou a sua vida.

Em frente a sede do Grupo Band, no bairro do Morumbi, em São Paulo, os taxistas prestaram uma homenagem a Ricardo Boechat, com um buzinaço.

Velório

De acordo com informações da família, o velório de Boechat vai ser realizado no MIS (Museu da Imagem e do Som), na Zona Oeste de São Paulo, a partir das 22h desta segunda-feira (11).

A cerimônia de despedida será aberta ao público e seguirá até as 14h de terça-feira (12). Após esse período, o velório será restrito para os familiares.

Cremação

O corpo do jornalista Ricardo Boechat deve ser cremado nesta terça-feira (12) em cerimônia reservada para parentes e amigos próximos, segundo informações do Grupo Bandeirantes de Comunicação. Até as 14h ocorre o velório no Museu da Imagem e do Som (MIS), no bairro Jardim Europa, na Capital paulista.

A pedido do presidente Jair Bolsonaro, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, irá representá-lo no velório do jornalista. Bolsonaro disse que ele e Boechat eram amigos “há mais de 30 anos” e que apelidou o jornalista de “Jacaré”.

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Empresa não tinha autorização para transportar passageiros

Segundo informou a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), a RQ Serviços Aéreos Especializados – empresa proprietária do helicóptero, onde viajava o jornalista Ricardo Boechat, não tinha autorização para realizar transporte de passageiros remunerado. O piloto Ronaldo Quattrucci, outra vítima fatal do acidente, era sócio-proprietário da empresa, sediada em Santana de Parnaíba, na região metropolitana.

A Anac informou ainda que será aberto um procedimento administrativo para “apurar o tipo de transporte que estava sendo realizado no momento do acidente”. Em nota, a Anac informou que  “a empresa RQ possui autorização para prestar Serviços Aéreos Especializados (SAE), que incluem aerofotografia, aeroreportagem, aerofilmagem, entre outros do mesmo ramo. (…). Qualquer outra atividade remunerada fora das mencionadas não poderia ser prestada”.

Já quanto à aeronave, a Anac informou que estava em situação regular, possuía o Certificado de Aeronavegabilidade (CA) válido até maio de 2023 e a Inspeção Anual de Manutenção (IAM) em dia até maio de 2019.

Ronaldo Quatrucci estava com as licenças e habilitações de piloto comercial de helicóptero (PCH) válidas.

A Polícia Civil investiga o que teria acontecido com a aeronave para fazer o pouso na rodovia.

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Boechat, um jornalista de estilo próprio marcado pelo humor ácido

O jornalista Ricardo Boechat, de 66 anos, nasceu em Buenos Aires, na Argentina, quando o pai Dalton Boechat, diplomata, estava a serviço do Ministério das Relações Exteriores. Dono de um humor ácido, usava essa característica para noticiar fatos e criticar situações. O tom era frequente nos comentários de rádio, televisão e também na imprensa escrita.

Nos anos 1970, Boechat começou no jornalismo no Diário de Notícias como assistente do colunista Ibrahim Sued. Do Diário de Notícias, seguiu com Sued para O Globo em que trabalhou por 14 anos. Também foi chefe de reportagem da Rádio Nacional, em 1973.

Boechat foi para o Jornal do Brasil, no início dos anos 1980, após briga com Sued. Logo depois retornou ao O Globo para assumir a Coluna do Swann. Ele teve uma breve passagem pela Secretaria de Comunicação do governo Moreira Franco, no Rio de Janeiro, em 1987.

Depois, ao voltar para O Globo, o jornalista ganhou sua própria coluna: Boechat. Nesta época, o jornal estabelecia a linha editorial de ter dois colunistas sociais de prestígio: Ricardo Boechat e Zózimo Barroso do Amaral.

Em 1997, passou a ser comentarista no telejornal Bom Dia Brasil, na Rede Globo. Nesta época, sua coluna era a mais lida no jornal carioca e uma referência nos jornais impressos, pautando dezenas de redações pelo país.

Em 2006, foi para o grupo Bandeirantes. Pela manhã, apresentava um programa com seu nome dividido em duas partes: uma nacional e outra dedicada ao Rio de Janeiro. À noite, era o âncora do Jornal da Band. Também escreveu para os jornais O Dia e O Estado de SPaulo.

Boechat teve diferentes cargos nas redações em que passou, mas sempre manteve a veia jornalística, talvez a sua maior característica profissional. Ele ganhou ganhou três prêmios Esso: em 1989, 1992 e 2001. Venceu oito vezes o Prêmio Comunique-se.

Flamenguista, foi atleta assíduo na pelada de fim de semana, que reunia artistas e jornalistas no Alto da Boavista, no Rio de Janeiro, durante muitos anos. Em 2008, escreveu Copacabana Palace: um hotel e sua história. Organizado por Cláudia Fialho, que por 17 anos foi relações públicas do hotel, o livro conta a história dos bastidores do cinco estrelas mais famoso do país.

Boechat deixa mulher, cinco filhas e um filho.

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Um nome consagrado no jornalismo

Aos 66 anos, Boechat era um dos principais nomes do jornalismo brasileiro. Além do comando do Jornal da Band, ele também era âncora da rádio Band News FM e tinha uma coluna semanal na revista ISTOÉ.

Ao longa da carreira, Boechat acumulou muitos prêmios. O jornalista conquistou o Prêmio Esso em três oportunidades (1989, 1992 e 2001). Ele também é o recordista de vitórias no Prêmio Comunique-se, ganhando em três categorias diferentes (Ãncora de Rádio, Colunista de Notícia e Âncora de TV).

Uma frase que sempre utilizava logo que acabava de fazer algum comentário pertinente, após a exibição de uma reportagem, ficou marcante: “Toca o barco!”

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Repercussão pelo Twitter

Pelo twitter, o presidente Jair Bolsonaro escreveu: “É com pesar que recebo a triste notícia do falecimento do jornalista Ricardo Boechat, que estava no helicóptero que caiu hoje em SP. Minha solidariedade à família do profissional e colega que sempre tive muito respeito, bem como do piloto. Que Deus console a todos!”

Também pelo twitter, o jornalista Alexandre Garcia escreveu: “Boechat um modelo de jornalismo corajoso. Tive a honra de substitui-lo no Bom Dia Brasil, como comentarista, há duas décadas. Descanse em paz, amigo, com as glórias de ter bem cumprido sua missão.”

Marcelo Madureira, do Casseta e Planeta e ex-comentarista da Rádio Jovem Pan, disse:  Meu amigo… #Boechat cobrimos copas juntos, rimos, brincamos, discutimos…que saudade e como dói …

O jornalista Augusto Nunes disse: “Ricardo Boechat foi durante 35 anos um dos meus maiores, melhores e mais queridos amigos. Tinha a alma suave como o azul dos seus olhos. Despeço-me do parceiro de uma vida inteira com um beijo e uma lágrima.”

O procurador da República Deltan Dallagnol também fez um post no Twitter:  “Boechat foi um jornalista independente que dizia o que precisava ser dito de modo direto, claro e corajoso. Sua voz lúcida fará falta em nossas rádios e na construção das discussões públicas em nosso país.”

O jornalista José Nêumanne Pinto escreveu: “A magia do rádio na voz de Boechat: O Jornal da Band tornou seu âncora popular em todo o País, mas foi participando de programas na rádio que Boechat conquistou mentes e corações de um público que o ouvia como se fosse um irmão.”

O vice-presidente Hamilton Mourão disse: “O vice-presidente da República, Hamilton Mourão, escreveu em seu Twitter “manifesto meus sentimentos às famílias de #RicardoBoechat e do piloto do helicóptero, aos profissionais da Rede Bandeirantes, rádio e televisão, extensivos à classe jornalística, pela triste notícia do acidente que os vitimou. Deus no comando.”

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, se expressou assim: “Recebo com tristeza a informação sobre a morte do jornalista Ricardo Boechat e do piloto do helicóptero que caiu nesta manhã. Boechat foi um dos grandes comunicadores do nosso país e uma referência de bom jornalismo e independência. Minha solidariedade a seus familiares e amigos”, disse Maia, por meio da rede social Twitter.

Já o presidente do Senado e do Congresso, Davi Alcolumbre, escreveu: “Foi em estado de consternação e tristeza que recebi a notícia da morte inesperada do jornalista Ricardo Boechat. Era um profissional reconhecido pelo trabalho e senso crítico aguçado revelado nos principais meios de comunicação do país. Envio meu sentimento de solidariedade aos seus colegas de trabalho e à toda sua família. Tenho certeza que os brasileiros lamentam a morte desse argentino que escolheu o Brasil como lar. Fica a saudade e o respeito pelo homem e jornalista que sempre demonstrou ser. Meu apoio fraterno também aos parentes e amigos dos demais ocupantes do helicóptero, que fatalmente caiu em São Paulo”, disse na rede social Twitter.

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Brasil tem 21 acidentes de helicóptero por ano

O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), da Força Aérea Brasileira, divulgou um balanço com os acidentes de helicóptero registrados no Brasil. De acordo com o órgão, entre janeiro de 2018 e julho de 2018, foram 220 acidentes – uma média de 21 por ano.

Esse total é três vezes maior que os acidentes com aviões. A Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA, na sigla em inglês) calculou as taxas de acidentes fatais de cada tipo de transporte, com base em números dos EUA. Para aviões, a taxa é de 0,84 a cada 100 mil horas de voo. Para os helicópteros, o número sobe para 1,2. Em termos percentuais, então, há 42% mais risco de acidentar-se num voo de helicóptero do que em um voo de avião.

Segundo o Cenipa, a principal causa é perda do controle de voo da aeronave (33,01% dos casos), seguida por colisão com obstáculos durante a decolagem ou pouso (13,11%) e falha no motor (11,65%).

De acordo com os registros oficiais, o Brasil possui uma das maiores frotas de helicópteros do mundo. No início de 2018, era de 2.154, boa parte disso apenas em São Paulo. Em 2016, a frota da Capital paulista já era maior que a de Nova York: 411 aeronaves por aqui contra 120 no espaço aéreo nova-iorquino.

 

*Com informações da Polícia Rodoviária Estadual, Band, Record TV, TV Brasil, Agência Brasil, Rádio Trãnsito, Corpo de Bombeiros, Anac, Cenipa e CCR.

 

Veja, abaixo, post da Rádio Trânsito, do helicóptero em chamas.

 

Foto: Band / Divulgação