Polícia apura participação de 3ª pessoa no massacre a estudantes da Raul Brasil

Jovem de 17 anos, já ouvido pela polícia, pode ser um terceiro participante do massacre. Sua apreensão já foi pedida à Justiça

 

PAULO QUARESMA – DO CORREIO INDEPENDENTE * – Um terceiro participante, de 17 anos – pode ter  participado na organização do atentato na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano – está sendo investigado pela Polícia Civil. Ele estudou o ensino médio e foi colega de classe de um dos atiradores, Guilherme Taucci Monteiro – também de 17 anos, que segundo a polícia foi quem liderou o ataque. E ainda pode haver um quarto participante, cujo apelido é Leco. Ele pode ser apenas amigo dos jovens que praticaram o ataque, mas tudo será investigado.

 

O jovem já foi ouvido pela polícia civil, que pediu à Vara da Infância e da Juventude a apreensão do adolescente e espera autorização. Existe a suspeita da existência de um grupo de terrorismo doméstico, que age na Deep Web – a internet profunda, proibida. (leia mais sobre isso mais abaixo)

 

Segundo a polícia, esse possível terceiro integrante do massacre na Raul Brasil estava na cidade de Suzano no momento do ataque, mas não foi até a escola. A polícia não revelou quais provas ligam o menor ao ataque.

 

Como o processo segue em sigilo de Justiça – por envolver um menor – os delegados e policiais civis não podem passar determinadas informações. Mas sabe-se que há um vídeo em que uma terceira pessoa aparece junto com os dois assassinos dias após eles terem alugado o carro usado no atentado, no dia 21 de fevereiro. Vale lembrar que o veiculo teria que ser entregue nesta sexta-feira (15/03), ou seja, dois dias após o ataque, o que reforça mais a teoria de crime predeterminado. O aluguel do carro foi pago com cartão de crédito.

 

Policiais civis do Instituto de Criminalística (IC) fazem perícia no Ônix alugado pelos responsáveis do massacre na escola suzanense – Foto Rovena Rosa / Agência Brasil

 

O delegado-geral da Polícia Civil, Ruy Ferraz Fontes, revelou que a polícia já sabe que o crime estava sendo planejado ao menos desde novembro e as conversas entre os comparsas ocorriam principalmente de forma presencial, já que moravam perto um do outro.

 

Pessoas que conviviam com os atiradores disseram à polícia que já tinham ouvido deles referência ao ataque da escola Columbine, nos Estados Unidos, que deixou 13 mortos e 24 feridos em 1999. “Eles queriam fazer o maior número de vítimas”, disse o delegado-geral. “Quem ouviu eles falando sobre isso ou não levou a sério ou ficou com medo”, complementou.

 

Ainda segundo o delegado-feral, até o momento é uma “presunção” de que um dos assassinos tenha atirado no outro e depois se suicidado. A conclusão sobre a morte dos assassinos depende ainda de informações que serão trazidas pela perícia.

 

O delegado-geral informou que não está claro ainda se a morte de Jorge Antonio de Moraes, o Jorginho, tio de Guilherme, foi motivada por vingança, já que ele chegou a contratar o sobrinho para trabalhar em sua empresa, mas teve que demiti-lo por causa de pequenos furtos. Jorginho tinha uma locadora de veículos e no mesmo terreno um lava-rápido, onde o sobrinho trabalhou.

 

Os dois rapazes que invadiram a Escola Raul Brasil e cometeram o massacre

 

*Com informações de  Letícia Albuquerque, colaboradora, e de Bruno Bocchini, da Agência Brasil, São Paulo

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Hacker preso em 2012 por planejar massacre na UnB inspirou suzanenses

O hacker Marcelo Valle Silveira Mello, criador de página que pode ter inspirado o ataque em Suzano – Reprodução 

 

Saulo Araújo – Do Metrópolis – Os autores do massacre desta quarta-feira (13/03), que teve 10 mortos e ao menos 23 feridos em Suzano, no Alto Tietê – região que ocupa a porção leste da Grande São Paulo, pegaram dicas de ataque em massa numa página virtual criada pelo hacker Marcelo Valle Silveira Mello, preso em 2012 pela Polícia Federal, acusado de planejar um atentado a estudantes da Universidade de Brasília (UnB).

 

No fórum Chamado Dogolochan, os jovens suzanenses agradeceram a ajuda, e deixaram rastros para avisar seus colegas virtuais do massacre que estava por vir. O fórum é conhecido como um local onde são discutidos abertamente a prática de crimes, violação de direitos humanos, além de racismo e misoginia.

 

De acordo com os investigadores, os responsáveis pela tragédia na Escola Estadual Raul Brasil – Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, 25 – faziam visitas constantes ao fórum Dogolochan, idealizado por Valle há cerca de uma década.

 

Em 2018, Marcelo Valle foi condenado a 41 anos, 6 meses e 20 dias de prisão, condenado por racismo, ameaça, incitação ao crime e terrorismo por meio da internet.

 

Seis dias antes de entrarem atirando em inocentes no colégio localizado no interior de São Paulo, Guilherme e Luiz Henrique publicaram sobre o ataque no Dogolochan, uma das comunidades mais extremistas do Brasil. Eles supostamente agradeceram a ajuda de outros membros e deixaram rastros para avisar internautas sobre o crime.

 

Um print mostra o que pode ser um dos atiradores agradecendo DPR, o administrador do Dogolachan, pelos conselhos recebidos.

 

“Muito obrigado pelos conselhos e orientações, DPR. Esperamos do fundo dos nossos corações não cometer esse ato em vão. […] Nascemos falhos, mas partiremos como heróis. […] Ficamos espantados com a qualidade, digna de filmes de Hollywood”, diz a mensagem.

 

Outros usuários questionaram se os atiradores eram integrantes do grupo, e a resposta dada por um dos administradores foi positiva.

 

O fórum extremista é conhecido como um local onde a prática de crimes é abertamente discutida. Tópicos abertos mostram que os dois homicidas pediram dicas de como realizar a barbárie.

 

Deep Web – a internet profunda, pode ser ponto de encontro do chamado terrorismo local

 

PAULO QUARESMA – DO CORREIO INDEPENDENTE – O que pode-se apurar ainda mais da influência, monitoria ou simplesmente adoração pelo site criado pelo hacker que está preso desde 2012 é que, em outras mensagens no Dogolachan, usuários se questionam se os atiradores eram integrantes do fórum e a resposta dada por um dos administradores foi positiva. Foi o que a reportagem do CORREIO INDEPENDENTE apurou, acrescentando detalhes ao que escreveu Saulo Araújo, no texto acima.

 

“Eles eram daqui do fórum, não?”, pergunta um deles, no que DPR (o administrador) responde: Não fiquem citando, mas era confrades daqui, sim. Logo vão encontrar algo em poder deles (…)”.

 

Segundo as mensagens, o sinal de que os preparativos para o ataque estavam prontos envolviam a publicação de um tópico com a letra de uma música conhecida dos integrantes do Dogolachan, aproximadamente três dias antes do crime. A publicação foi feita na última segunda (11), às 4h31, segundo registros do próprio fórum.

 

Um tópico com as dicas pedidas pelos atiradores enquanto planejavam o massacre foi classificado como secreto por DPR, que mudou sua URL para não ser achado em futuras investigações de autoridades.

 

O próprio administrador, posteriormente, deu alguns detalhes de como ajudou os dois atiradores a conseguirem armas, além de descrever Guilherme como um “um bom garoto que acabou descobrindo da pior forma possível que brincadeiras podem ser tornar pesadelos reais”.

 

Segundo o mesmo texto de DPR, o “Luiz entrou em contato para buscar um canal onde ele obtivesse fácil acesso a um revolver calibre 22”, e logo depois lhe apresentou Guilherme. Ele encerra a publicação afirmando que as conversas foram deletadas e jamais irá revelar o teor exato delas.

 

Mais tarde, DPR, o administrador, descreveu trocas de e-mails com Luiz, que teria interesse em comprar uma arma com facilidade, e que também foi apresentado à Guilherme por Luiz. Segundo o administrador, Luiz era conhecido no fórum como “luhkrcher666”, e Guilherme como “1guY-55chaN”. DPR diz ainda que cortou o contato com Luiz por e-mail pois ele deixava muitos “rastros” digitais, que facilitariam a identificação de todos os membros.

 

Por fim, DPR diz que Luiz era um “rapaz injustiçado”, enquanto Guilherme, de apenas 17 anos, era “inocente a ponto de transparecer sua natureza completamente infantil”. Ele afirma que todas as conversas foram deletadas e jamais irá revelar o teor exato delas.

Fórum anônimo

O Dogolachan foi criado em 2013 pelo hacker Marcelo Valle Silveira Mello, também conhecido como Psy ou Batoré. Mello é conhecido por crimes de ódio e foi a primeira pessoa condenada pela Justiça do Brasil por crime de racismo na internet, em 2009. Ele se posicionou contra as cotas raciais de maneira preconceituosa e foi condenado a um ano e dois meses de prisão.

 

Rastrear as atividades do fórum é difícil, após ele ter sido movido para a Deep Web, onde só é possível acessá-lo através do aplicativo TOR, que confere anonimato para seus usuários.

 

Até maio de 2018 o site era comandado por Marcelo Valle, preso no dia 10 na Operação Bravata, da Polícia Federal. Desde então, DPR se tornou o administrador principal e tornou o fórum ainda mais rodeado de sigilo.

 

O fórum está ligado também ao Massacre de Realengo (uma escola de um bairro do subúrbio do Rio de Janeiro) onde Wellington Menezes de Oliveira — considerado um herói no Dogolachan — matou 12 crianças, antes de se matar.

 

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RELEMBRE COMO FOI O ATAQUE DOS 2 ATIRADORES