Pelé 80 anos: vida longa ao rei, que representa “o talento absoluto do futebol brasileiro”

Edson Arantes do Nascimento mudou os rumos do futebol brasileiro

 

Fábio Lisboa –  TV Brasil – Rio de Janeiro – O futebol brasileiro tem vários personagens. Mas nenhum deles tem o protagonismo de Edson Arantes do Nascimento. A importância de Pelé é tamanha que é possível falar que, a partir dele, o mundo mudou a forma de ver os jogadores e a seleção do Brasil.

Biografia de Pelé

A trajetória daquele que viria a ser conhecido como o rei do futebol começa de forma muito comum. Nascido em 23 de outubro de 1940, na cidade mineira de Três Corações, Pelé vem de “uma família das classes populares, que trabalhava duro para educar os filhos”, diz o pesquisador do MEMOFUT (Grupo Literatura e Memória do Futebol) Rodrigo Saturnino.

Ainda na infância, um fato parece definir sua relação com o futebol. Ao ver o pai, o ex-jogador José Ramos do Nascimento, o Dondinho, chorar após a derrota da seleção brasileira na final da Copa do Mundo de 1950, o pequeno Edson promete que conquistaria o primeiro Mundial do país.

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Pelo twitter…
Pelé
@Pele

Eu aprendi desde cedo, com meu pai Dondinho, que o futebol deveria ser um instrumento para o bem. Uma vez ele me viu driblando um oponente mais fraco e falou que eu devia respeitar meus rivais sempre. Eu levei isso para a vida, usando meu talento para promover amor e paz

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Mas antes de cumprir esta promessa, Pelé daria os primeiros passos no esporte na cidade paulista de Bauru, para onde a família dele se mudou durante sua infância. Lá defendeu várias equipes amadoras de futebol de campo e salão, até que, ao completar 15 anos, foi levado para fazer um teste no Santos. Aprovado, foi contratado em junho de 1956 e começou a defender a equipe da Vila Belmiro.

No Santos, desandou a marcar gols, o que lhe garantiu a primeira convocação para a seleção brasileira em 1957 para participar da Copa Roca, competição na qual fez seu primeiro tento e iniciou uma caminhada de conquistas.

 

Pelé, Fotografia de um dos gols marcados pelo Brasil na vitória sobre a Argentina em jogo válido pela Copa Roca de 1957. Arquivo Nacional. Fundo Correio da Manhã.
Pelé (direita) em jogo contra a Argentina durante a Copa Roca de 1957 – Arquivo Nacional/ Correio da Manhã

Rei desde jovem

A qualidade de Pelé era tamanha, que a ideia de que ele era o rei do futebol surgiu antes mesmo da conquista de um título de expressão pela seleção. Jovem ainda, com 17 anos, meses antes da disputa da Copa de 1958, o dramaturgo Nelson Rodrigues se referiu ao jogador da seguinte forma em uma crônica sobre o jogo entre America e Santos: “O que nós chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: – a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento”.

A coroação definitiva vem com a conquista dos títulos das Copas do Mundo. “Em 1957, o futebol brasileiro estava por baixo, com a derrota para a seleção uruguaia em 1950, a apenas regular participação na Copa de 1954, os resultados fracos durante uma excursão à Europa em 1956 e o fraco desempenho no Campeonato Sul-Americano de 1957 (…). E surge Pelé, com 17 anos. O futebol brasileiro então passou de 5ª a 6ª força para ser, indiscutivelmente, o melhor do mundo. Com Pelé e Garrincha, a seleção nunca perdeu. Foram três títulos mundiais em quatro Copas. Pelé foi o principal responsável por esse desempenho. A identificação da seleção com o povo brasileiro atingiu seu ponto máximo. Pelé se transformou na face do Brasil bem sucedido, o brasileiro mais reconhecido da história, em todo o mundo”, diz Saturnino.

 

Pelé, Seleção brasileira perfilada antes de partida válida pela Copa do Mundo da Suécia, junho de 1958. Arquivo Nacional. Fundo Correio da Manhã.
Seleção brasileira perfilada antes de jogo da Copa da Suécia, em 1958 – Arquivo Nacional/Correio da Manhã

 

O sociólogo e professor da Faculdade de Comunicação Social da Universidade do Rio de Janeiro (Uerj) Ronaldo Helal concorda e afirma que Pelé foi fundamental para a seleção acabar com a história de que teria um complexo de vira-latas (expressão de Nelson Rodrigues) que a impediria de conquistar títulos: “Em 1958 o Brasil ganha a Copa do Mundo, e Pelé foi marcante, se tornando o rei do futebol com 17 anos de idade”.

Auge no México

Entre estas conquistas uma ocupa um lugar especial na história do futebol, a da Copa do Mundo de 1970, no México. Foi nesta competição que Pelé mostrou todo o seu potencial como jogador. “Em 1970 ele foi fundamental, fez uma Copa ímpar, brilhante do início ao fim, e colocou o Brasil no topo do futebol mundial”, diz Helal.

Clodoaldo, um dos companheiros de Pelé naquela campanha, compartilha desta opinião: “Foi o melhor momento do Pelé na seleção brasileira. O vi em 1970 como nunca, preparado nos aspectos físico, técnico e psicológico. Ele estava voando. Foi o momento no qual atingiu o máximo de sua carreira”. Nesta competição o futebol brasileiro alcançou um novo patamar, passando a ser admirado em todo o mundo, como mostra este filme produzido pela Fifa:

Quantos gols Pelé fez

O sucesso de Pelé não se deve apenas à seleção. Foi pelo Santos que ele marcou a maior parte dos seus 1281 gols (em 1363 jogos), que o transformaram no maior goleador da história do futebol mundial. O tipo de feito que fez com que o público o tratasse de uma forma especial. “O Pelé foi o único jogador, pelo menos que eu saiba, que fazia uma boa jogada contra um time, ou um gol de placa, e a torcida adversária aplaudia, às vezes de pé”, diz Helal, que é torcedor do Flamengo, citando as oportunidades nas quais, em sua infância, ia ao estádio simplesmente para ver o camisa 10 do Santos entrar em campo.

 

Um destes gols mobilizou a atenção do público de forma especial, o de número mil, alcançado no dia 19 de novembro de 1969 em vitória de 2 a 1 do Santos sobre o Vasco no estádio do Maracanã. O detalhe é que Pelé tinha apenas 29 anos ao alcançar esta marca.

Fórmula secreta

Tantos feitos levam à pergunta: como um menino comum, nascido em Minas, se transformou no rei do futebol? “O destaque na história do futebol vem de seu talento e sua técnica, por ter sido o único a fazer excepcionalmente bem, dentro de campo, tudo o que um jogador de futebol pode fazer. Selecione um atributo, e Pelé foi um dos melhores”, afirma Saturnino.

O ex-jogador Pepe, companheiro de Santos e seleção do eterno camisa 10, defende que um jogador com estas características surge apenas uma vez na história: “No futebol atual têm aparecido grandes jogadores. Porém, igual a Pelé não aparece. Completo, perna direita, perna esquerda, impulsão, chute, cabeceio, corrida, gols, maior artilheiro do futebol mundial de todos os tempos. Penso que seu Dondinho e dona Celeste rasgaram a fórmula e não aparece mais um jogador igual a Pelé”.

Vida longa ao rei

Desta forma é mais do que justa a celebração da vida de um jogador que foi o melhor em todos os fundamentos de seu esporte, superando inúmeros recordes coletivos e individuais e levando o futebol brasileiro a um novo patamar.

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Pelé representou “o talento absoluto do futebol brasileiro”, diz Márcio Guedes

Como descrever Pelé? “O nível do futebol de Pelé é absoluto. Melhor do que todos os outros. Ele tinha uma habilidade extraordinária, fisicamente era abençoado”, esta é a opinião do jornalista esportivo Márcio Guedes. Em 51 anos de carreira, o comentarista do programa No Mundo da Bola, transmitido aos domingos pela TV Brasil, acompanhou in loco momentos marcantes da vida do craque, como o gol mil e a conquista da Copa do Mundo de 1970, no México.

Com passagens por importantes veículos de comunicação como Estado de São PauloJornal do BrasilO Dia, Rede Globo, TV Record, TV Bandeirantes, Correio da Manhã, Jornal da Tarde e ESPN, o jornalista também fala nesta entrevista à Agência Brasil sobre como Pelé ajudou o futebol brasileiro a começar a ser admirado em todo o mundo.

 

Pelé,Seleção brasileira no aeroporto, durante excursão a Madri, junho 1966. Arquivo Nacional. Fundo Correio da Manhã
Pelé (esquerda) e outros jogadores da seleção em Madri (Espanha) em 1966 – Arquivo Nacional/Correio da Manhã.

 

Agência Brasil – Qual o momento mais marcante da trajetória de Pelé?
Márcio Guedes – Destacaria dois momentos fora de série. O primeiro deles foi o milésimo gol. Este gol custou a sair. Em vários jogos ele acabou não conseguindo marcar. Chegou então o jogo com o Vasco no Maracanã, e o país inteiro estava mobilizado em torno do gol do Pelé, que acabou saindo em cobrança de pênalti. Todos queriam o gol em uma jogada de campo, mas acabou saindo de pênalti e foi uma alegria, uma festa. Foi notícia no mundo todo. Agora, quando se fala de conquista esportiva, diria que foi a Copa de 1970. Isto porque 1958 foi o início dele, quando apareceu para o mundo. Já em 1962 ele teve uma contusão no segundo jogo e ficou fora de praticamente toda a competição. Então, faltava uma participação intensa e total em um Mundial. Em 1970 ele fez uma Copa muito boa, teve também uma cabeçada no jogo contra a Inglaterra, que o goleiro Gordon Banks defendeu e que é falada até hoje. Então diria que a conquista do Tri, a importante participação dele nessa campanha, e o que ele fez na final contra a Itália, com um gol de cabeça espetacular, foi um momento marcante da carreira de Pelé.

 

Com três títulos, Pelé é o maior ganhador de Copa do Mundo
Pelé é o único jogador de futebol a conquistar três edições de Copa do Mundo – Direitos reservados/Divulgação CBF.

 

Agência Brasil – Como profissional, o que representou acompanhar de perto a carreira do maior jogador de todos os tempos?
Guedes – É curioso. Naquela época havia tantos craques, uma variedade tão grande de jogadores espetaculares, que não chegou a ser uma coisa diferente como hoje em dia quando alguém acompanha Lionel Messi ou Cristiano Ronaldo. Hoje, o argentino e o português estão muito acima dos outros. Pelé estava acima dos outros jogadores de sua época, mas não era tanto assim. Tinha o Garrincha também, que tinha outro estilo, mas era um fenômeno que todos acompanhavam com grande interesse. Outro fator que pode ter servido para dispersar este fascínio é que o país ainda não era tão unido pelos meios de comunicação. Todos sabiam que Pelé era maravilhoso, mas isto só começou a aparecer de forma mais intensa no final dos anos 1960, começo dos anos 1970. Assim, penso que ele começa a ser mais falado após o final de sua carreira.

Agência Brasil – Pelé já afirmou que nunca se sentiu o rei do futebol. A alcunha é justa?
Guedes – Sim, a alcunha é justa. Isto porque o nível do futebol de Pelé é absoluto, melhor do que de todos os outros. Ele tinha uma habilidade extraordinária, fisicamente era abençoado, conseguia ganhar vários lances apenas usando o físico. Era um jogador veloz e oportunista, e até mesmo voltava para marcar os adversários, pelo menos até o meio do campo. Ele era completo, e era um atleta também. Além disso, tinha a cabeça muito boa, não criava caso com ninguém. Você vai a qualquer lugar do mundo, vai à China, ao Japão, à Coreia, à Tanzânia, você fala de Pelé e todos sabem quem é, o maior jogador de futebol de todos os tempos.

Agência Brasil – Qual a maior contribuição de Pelé para o futebol brasileiro?
Guedes – Foi a propaganda que ele fez de nosso futebol. Nos anos de 1950 nosso futebol era considerado muito sem estrutura, taticamente muito ruim. Além disso, o entendimento é que na hora da decisão perdíamos os jogos. Assim, Pelé representou a força do futebol brasileiro, o talento absoluto de nosso futebol. Ele era o maior do mundo e era brasileiro. Então, essa imagem do nosso futebol, que se espalhou por todo o mundo, foi sua maior contribuição.

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