Brasília 58 anos, histórias de quem adotou a cidade

Andréia Verdélio e Paula Loboissière – Repórteres da Agência Brasil  Brasília

 

Com uma população de  mais de 3 milhões de habitantes, o Distrito Federal é um caldeirão de costumes, sotaques e culturas. Nos seus 58 anos, Brasília reúne histórias de migrantes que trocaram sua terra natal pela capital. Pessoas que pensavam em passar apenas uma temporada, mas que constituíram família e não pensam em deixar Brasília.

Gilberto José Zortêa, 41 anos, gaúcho de Erechim, veio para estudar e voltar ao Rio Grande do Sul. O retorno jamais ocorreu. “Cheguei aqui há 22 anos, me formei, construí família e atualmente desejo contribuir para o crescimento da cidade”, disse. “Não me vejo mais morando no Rio Grande. De forma alguma mudaria de Brasília para qualquer outro lugar”, acrescenta.

Brasília: Gilberto José Zórtea, patrão do Centro de Tradições Gaúchas (CTG) Jayme Caetano Braun, durante entrevista para a Agência Brasil. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Gilberto José Zórtea, patrão do CTG Jayme Caetano Braun
Marcelo Camargo/Agência Brasil

Foi em Brasília que Zortêa conheceu a mulher, que é brasiliense, e ganhou uma sogra gaúcha e um sogro goiano. “É a mistura dos povos. Cada cultura tem seus sabores e dissabores no Brasil, mas somente Brasília e São Paulo conseguem ter essa perfeita miscigenação.”

Responsável pelo Centro de Tradição Gaúcha (CTG), do qual é “patrão” – termo equivalente a presidente -, Zortêa promove eventos e gosta de reunir pessoas de todos os cantos do país e do mundo. “Temos sócios que não são gaúchos, mas estão sempre nos jantares da tradicional Sexta Nativa onde há comida, música e dança típicas.”

Casa do Ceará

Osmar Alves de Melo, presidente da Casa do Ceará, é de Iguatu (CE). Em 1963, chegou sozinho a Brasília, mas pouco tempo depois veio a família: o pai, a mãe e os 12 irmãos estão na capital federal. Na cidade, ele casou e teve três filhas.

Osmar Alves de Melo, presidente da Casa do Ceará
Osmar Alves de Melo, presidente da Casa do Ceará
Marcello Casal Jr/ Agência Brasil

“Sempre pensei que quando me aposentasse iria voltar para o Ceará. Até comprei apartamento. Mas o imóvel virou local para passar as férias”, disse Melo. Hoje, descarta a possibilidade de retonar ao Ceará. “Não volto mais. Tenho até o título de Cidadão Honorário de Brasília e ajudei a construir o parque Olhos d’Água. O cearense é um estado d’alma, leva a cultura, seus costumes e hábitos para onde vai. Não perde a ligação, mesmo não querendo voltar.”, diz

Pioneiro

O historiador e jornalista Adirson Vasconcelos chegou a Brasília, em 3 de maio de 1957 – veio do Recife para a capital para a cobertura das obras de inauguração. Ele se lembra com carinho do sentimento daquele dia. “O céu azul, com nuvens muito brancas, e o sol me abraçando me deixaram abestado e atônito”, relatou. Três anos depois, resolveu voltar e ficar.

 O historiador e jornalista Adirson Vasconcelos
O historiador e jornalista Adirson Vasconcelos –
Marcelo Camargo/ Agência Brasil

Bem-humorado, Adirson disse da surpresa que teve quando tentou localizar Brasília no mapa. “Não encontrei nada que indicasse a nova capital do Brasil. Brasília fica no fim do mundo. Um amigo me disse: nada disso, é um pouquinho mais longe do que o final do mundo”, brinca.

Do trabalho que seria apenas uma cobertura jornalística, Adirson fez a troca do Recife por Brasília. Segundo ele, na época ouviu do escritor Gilberto Freire: “As novas gerações que nascerão lá [em Brasília] serão a síntese da miscigenação do Brasil.”

“O sonho dele foi realizado”, diz filha de JK, Maria Estela Kubitschek

Da Agência Brasil  Brasília

Emocionada, Maria Estela Kubitschek, filha do ex-presidente Juscelino, busca na memória de mais de meio século as lembranças sobre a criação de Brasília. No aniversário de 58 anos da capital federal, ela confidenciou à Agência Brasil que não se contém ao ver o sonho do pai realizado: a cidade, idealizada por ele, reunindo pessoas dos mais distintos lugares e que percebem Brasília como um local de integração.

“O sonho de Juscelino Kubitschek de criar uma comunhão entre os brasileiros de várias regiões, raças, sotaques, neste país continental, numa verdadeira integração nacional, foi realizado”, afirmou Maria Estela que acompanhou a construção da cidade ao lado da mãe Sara e da irmã, Márcia.

O sonho de Juscelino Kubitschek: criar uma comunhão entre os brasileiros de várias regiões, raças, sotaques, neste país continental, numa verdadeira integração nacional

Para Maria Estela, JK acreditava que, apesar de ser responsável pela construção da nova capital, ele acreditava “todos eram donos” na cidade.”Percebo este sentimento na população de Brasília: ‘gentes’ de vários estados, mas todos se sentem donos da cidade, e por isso, a maioria não a abandona”.

Para a filha de JK, todos os anônimos contribuíram para fazer de Brasília o que ela é hoje. “Cada um teve e muitos ainda têm uma contribuição na construção de Brasília.”

Candangos

Imagens da construção de Brasília. Esplanada dos Ministérios
Imagens da construção de Brasília. Esplanada dos Ministérios –
Arquivo Público de Brasília/Direitos Reservados

Maria Estela lembra que o pai adorava a companhia dos “candangos”, trabalhadores que ajudaram a construir a cidade, e escapava sempre que possível para estar com eles.

“Às noites, JK sentava com os candangos, nos canteiros de obras e cantava com eles. Às vezes, ele chegava tão à vontade que muitos se perguntavam se era realmente o presidente que estava ali”, contou Maria Estela.

Avesso a convenções, Maria Estela disse que o pai resistiu à ideia de Brasília ter uma pedra fundamental. No lugar da pedra, plantou uma cruz e chamou o arcebispo Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, de São Paulo, para celebrar um ato ecumênico. O arcebispo trouxe uma imagem de Nossa Senhora Aparecida que está na Catedral de Brasília. “Foi com a primeira missa, assim como no descobrimento, que nasceu Brasília”, relatou.

O avião que virou cidade

O Plano Piloto, coração de Brasília, nasceu de um concurso para selecionar o melhor entre 41 projetos. O arquiteto Lúcio Costa foi o vencedor. Ele pensou Brasília em forma de avião com amplas asas e um corpo extenso. Assim, na capital não há nomes de ruas nem bairros, são números siglas e duas referências: Asa Norte e Asa Sul.

*Colaborou Paula Barros, da TV Brasil no Rio de Janeiro.