Morre José Mojica Marins, o Zé do Caixão, que tinha ligações com Mogi das Cruzes

Cineasta morreu de broncopneumonia. Ele tinha ligações com cineastas de Mogi das Cruzes

 

PAULO QUARESMA – DO CORREIO INDEPENDENTE – Quem tem mais de 50 anos, com certeza tremeu muito, na infância, com os filmes do cineasta José Mojica Marins, o Zé do Caixão – como “À Meia-Noite Levarei Sua Alma”, entre outros, ou então em seus programas de televisão da extinta TV Tupi ou mesmo na Bandeirantes. Pois esse mestre do cinema brasileiro morreu nesta quarta-feira (19/02), aos 83 anos, em São Paulo, vítima de uma broncopneumonia.

Cineasta, ator, roteirista de cinema e televisão brasileiro mais conhecido como Zé do Caixão, seu personagem mais famoso. É considerado o “pai” do terror nacional, tendo sua obra grande importância para o gênero, influenciando várias gerações

O velório de José Mojica, aberto ao público, começa às 16h desta quinta-feira (20/02), no auditório do Museu da Imagem e do Som (MIS).

Internado no Hospital Santa Maggiore há cerca de 20 dias, Mojica foi vítima de uma infecção que se transformou em uma pneumonia. Mas a saúde do cineasta vinha desde 2014, quando sofreu um enfarte. Isso gerou problemas nos rins que, comprometidos, o levaram a fazer diálise (técnica que visa suplementar as falhas da função renal de certos indivíduos que não conseguem eliminar água e produtos de excreção do sangue, podendo ser realizada tanto sob a forma de hemodiálise quanto de diálise peritoneal).

De acordo com familiares, esse procedimento exigiu que um cateter fixo fosse implantado, e foi c fonte de várias infecções, como a mais recente, que o levou ao hospital, de onde saiu sem vida.

 

Um pouco da história

Nascido em uma sexta-feira 13 (março de 1936), na Vila Mariana, bairro da Capital paulista, José Mojica Marins foi um autodidata. Produziu mais de 30 filmes, além de participar de programas de televisão.

O amor pela Sétima Arte ele herdou do pai – que era gerente de um cinema na Vila Anastácio, bairro da zona oeste da Capital paulista. E foi o pai quem lhe deu, na década de 1940, uma câmera como presente de aniversário. Foi com ela que iniciou produzindo uma série de curtas com os coleguinhas do bairro. Seu primeiro estúdio, na virada dos anos 1940 para os anos 1950, foi em um galinheiro improvisado.

Embora Mojica tenha sido conhecido principalmente como diretor de cinema de terror, teve trabalhos anteriores cujos gêneros variavam entre faroestes, dramas, aventura, dentre outros, incluindo filmes do gênero pornochanchada, no Brasil, durante aquela época.

Mojica desenvolveu um estilo próprio de filmar que, inicialmente desprezado pela crítica nacional, passou a ser reverenciado após seus filmes começarem a ser considerados cult no circuito internacional. Mojica é considerado como um dos inspiradores do movimento marginal no Brasil.

Mojica Marins criou uma personagem popular sem se basear em nenhum mito do horror conhecido mundialmente. “Zé do Caixão”, sua personagem mais conhecida, foi criado por ele em 11 de outubro de 1963, após ser atormentado por um pesadelo no qual um vulto o arrastava até seu próprio túmulo.

Segundo o próprio José Mojica Marins, o nome Zé do Caixão veio de uma lenda de um ser que viveu há milhões de anos no planeta terra que se transformou em luz e depois de anos esta luz voltou a terra. A primeira aparição da personagem foi no filme “À Meia-Noite Levarei Sua Alma” (1964). Desde então, ele apareceu em diversos filmes, ganhou popularidade e tem sido retratado em diversas outras mídias.

De cartola na cabeça, capa negra e já com as consagradas unhas compridas nas mãos, surge em cena Zé do Caixão, o temível coveiro que entrou para a história do cinema brasileiro.

 

Mojica tinha ligações com Mogi das Cruzes

Mojica tinha ligações com Mogi das Cruzes. Quem conta os detalhes é o também cineasta Daniel Sampaio, da Gênesis Filmes Produções, que gravou no Alto Tietê (região de Mogi das Cruzes, na porção leste da Grande São Paulo), dois filmes com ele – um ainda em produção. “Conheci o Zé por meio de um amigo, em 2006. Sempre a gente se falava por telefone e fui alguma vezes para São Paulo para falar com ele”, conta Sampaio.

“Era gente finíssima, sempre que nos encontrávamos ele me falava do começo da sua carreira, adorava filmes de bang bang e ate produziu um – “A Sina do Aventureiro”, em 1958, que infelizmente não virou””, prossegue o cineasta mogiano.

Sampaio conta que em 2008 convidou Zé do Caixão para fazer uma participação no filme “A Última Chance”. “Daí não paramos mais de nos falar. Eu, em particular, adorava ouvir suas ricas histórias. Lembro bem da última gravação, em Biritiba Mirim [cidade vizinha a Mogi das Cruzes], na Fazenda Iroy, quando ficamos horas conversando sobre as produções realizadas por ele, em sua carreira vitoriosa”, rememora Sampaio. “Enfim, era um profissional e pessoas maravilhosa”, conclui o cineasta de Mogi.

A segunda produção que Mojica participou da Gênesis, de Daniel Sampaio, “O Filho Pródigo”, ainda está em fase de produção. Mas Zé do Caixão teve que interromper as filmagens. “Devido o estado de saúde, o Mojica ficou impedido de viajar. Mas as cenas que foram gravadas com a participação dele no filme são suficientes e até em homenagem a esse ícone em pretendo aproveitar na edição final”, conta. “O Filho Pródigo” tem a participação, além dos atores locais, de outro nome famoso da televisão e cinema do Brasil, o ator e humorista Teobaldo.

O cineasta de Mogi das Cruzes, Daniel Sampaio ao lado de José Mojica Marins, em um dia de filmagem

 

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Assista a um breve resumo da vida de José Mojica Marins, feita pelo locutor Almeida Junior
Veja trechos da última entrevista de José Mojica Marins à televisão, feita a Geraldo Luís, da Record TV