Morre em Fortaleza, aos 94 anos, Padre Melo, o homem que mudou a cara de Mogi das Cruzes e “colocou a cidade no mapa”

Fundador da Omec, que depois virou UMC, Manoel Bezerra de Melo foi também prefeito de Mogi das Cruzes. Sua morte ocorreu em Fortaleza

 

PAULO QUARESMA – DO CORREIO INDEPENDENTE – Morreu na manhã desta terça-feira (09/06), em Fortaleza (CE), aos 94 anos, de insuficiência cardíaca, Manoel Bezerra de Melo, o Padre Melo, fundador e chanceler da Organização Mogiana de Educação e Cultura (OMEC), e que depois se transformou em Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), e ex-prefeito da cidade.

Padre Melo, que sofria de bronquite asmática, estava internado por conta de problemas respiratórios no Hospital Monte Clínico e, há alguns anos, já havia sido submetido a duas cirurgias cardíacas.

Ainda não há confirmação por parte da família, mas é provável que Padre Melo seja sepultado no mesmo Cemitério Parque da Paz, na Capital cearense, onde foi sepultada a sua esposa.

A única filha, Regina Coeli, viajou para o Ceará em voo fretado – mesmo antes de saber da morte do pai, pois foi avisada do seu problema de saúde.

De acordo com o vereador Antonio Cuco Pereira, “a Câmara de Mogi das Cruzes fez um minuto de silêncio no início da sessão desta terça-feira (09/06) e vários colegas vereadores prestaram as suas homenagens a respeito desta perda para a história política de nossa cidade.”

Também nesta terça, o prefeito Marcus Melo decretou luto oficial de três dias em virtude da morte do ex-prefeito e também fundador e chanceler da Universidade de Mogi das Cruzes A Bandeira do Município está hasteada a meio mastro

Melo só se afastou de Mogi, e foi morar no seu apartamento em Aldeota, bairro nobre da Capital cearense, há algumas décadas, justamente para, como asmático, ficar longe do frio que faz na cidade e em toda a Região Metropolitana de São Paulo.

 

O início de tudo

Manoel Bezerra nasceu em 18 de janeiro de 1.926 em Crateús, a 351 quilômetros de Fortaleza, Capital cearense. Sacerdote da Igreja Católica, chegou em Mogi das Cruzes exatamente em 2- de março de 1962, aos 36 anos, para atuar como padre na Igreja Matriz de Santana, a Catedral da cidade. Foi indicado pelo então arcebispo dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta, preocupado com a falta de padres na cidade. Já havia atuado em paróquias no Recife e também no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro.

Em território mogiano, paralelo às atividades religiosas, Padre Melo ministrava aulas no Instituto de Educação Dr. Washington Luiz. Dois meses após sua chegada, vindo do rio, o padre jesuíta fundou a Organização Mogiana de Educação e Cultura (OMEC), em 28 de maio de 1962, em um prédio na Rua Senador Dantas, área central mogiana. Inicialmente, a organização ministrava curso de admissão ao ginásio (que era feito após o estudante completar o antigo primário) e algum tempo depois a instituição passou a oferecer, também, os cursos colegial e colegial científico.

Em 1964 foram instaladas as primeiras faculdades do complexo educacional que, a partir de 1973, dezenove anos depois, passou a se chamar Universidade de Mogi das Cruzes (UMC).

No ano seguinte à chegada a Mogi, Melo passou a integrar a Secretaria de Educação e Cultura do Estado de São Paulo, sendo nomeado diretor da Divisão de Relações Públicas da secretaria. Com influência crescente na região de Mogi das Cruzes, Padre Melo solicitou autorização ao Ministério da Educação para implantar uma faculdade de Filosofia, Ciências e Letras na cidade. Após a análise documental, o conselheiro Newton Sucupira (do Conselho Federal de Educação) autorizou em dezembro de 1963 a abertura da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências de Mogi das Cruzes.

Com o Golpe de Estado no Brasil em 1964, a Faculdade sofreu atrasos em sua implantação. O padre Melo passou a buscar apoio do presidente da Assembléia Legislativa de São Paulo, deputado Francisco Franco, e -posteriormente- de membros da Arena (partido governamental) para acelerar os trâmites. Após uma visita do presidente, marechal Humberto Castello Branco a Mogi, padre Melo conseguiu reunir-se com o mesmo e obteve autorização para os primeiros cursos.

Em 1968, passou a ter as Faculdades de Medicina e de Engenharia e, em 1969, os cursos de Administração de Empresas, Economia, Odontologia, Ciências Biológicas, Desenho, Estudos Sociais, Física e Psicologia.

No ano de 1973, a Universidade de Mogi das Cruzes  teve seu o reconhecimento como
universidade, e hoje tem também a unidade Villa-Lobos, na Vila Leopoldina, bairro da zona oeste de São Paulo.

 

O padre que se casou

Em 1971 – onze anos depois da sua chegada a Mogi, Padre Melo recebeu autorização do Papa Paulo VI, obteve a liberação dos votos de padre e casou-se com Maria Coeli, professora cearense. Com ela teve a única filha, Regina Coeli Bezerra de Melo – atual reitora da UMC. Melo deixa quatro netos. A sua esposa, Maria Coeli Bezerra de Melo, vice-Chanceler da universidade, faleceu em 30 de maio de 2.014.

Em 1 de junho de 2.012, quando a OMEC completou 50 anos, a Câmara Municipal de Mogi das Cruzes prestou uma homenagem à instituição, e concedeu o título de cidadã mogiana à filha de Padre Melo. Na ocasião, Melo contou um pouco da sua chegada. “Eu tinha 36 anos, um padre novo, homem trabalhador e vencedor, quando a providência divina me trouxe para Mogi. Sabia, ao chegar aqui, que iria revolucionar a mentalidade do povo, a cidade era muito conservadora”.

E mudou mesmo, começando pelo hábito de não usar a batina: ele preferia o terno e o colarinho branco no lugar da gravata. Fazia sermões que chamavam a atenção do povo, que só queriam assistir às missas se fossem com o Padre Melo. Quem viveu em Mogi naquela época, católico ou não, sabe que as missas celebradas por ele na Catedral lotavam, chegando a ficar muita gente do lado de fora.

Carreira política e os esportes

Ainda como padre e antes do casamento, em 1966, Padre Melo teve sua iniciação política, candidatando-se a deputado federal por São Paulo. Seu partido era a Aliança Renovadora Nacional (Arena). No Congresso, propôs a lei do divórcio. Por três vezes foi deputado federal representando o Estado de São Paulo.

Filiou-se ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) no fim da década de 1980 e, em 1993, foi eleito vice-prefeito de Mogi na chapa de Francisco Ribeiro Nogueira, o Chico Nogueira. Após a morte do titular em 1994, no segundo ano de mandato, Padre Melo assumiu o cargo de prefeito de Mogi das  Cruzes.

Entre obras marcantes, deu início {à passagem subterrânea Engenheiro Osvaldo Crespo de Abreu, apelidado de o Buraco do Padre em alusão a ele, que liga o Shangai ao Mogilar, e pela construção do Ginásio Municipal de Esportes Professor Hugo Ramos, o Hugão, no Mogilar. Nesse ginásio, por exemplo, o time de basquete da cidade sagrou-se campeão paulista e nas comemoraçõs, na quadra, Padre Melo foi jogado ao ar pelos jogadores. Foi em 1996, quando a equipe, hoje Mogi das Cruzes Basquete, se chamava Mogi/Report/Eroles. O técnico era Cláudio Mortari, e num Hugão recém construído e “cheirando a tinta”, a equipe mogiana conquistou o Campeonato Paulista, vencendo na final o tradicional time do Cougar/Franca.

Durante muito tempo apoio também o União Futebol Clube, e comparecia a todos os ém jogos da equipe na cidade. Também apoiou um piloto da cidade que competia pela Fórmula Sulamericana.

Em 2000 apoiou a candidatura de Junji Abe e, em 2008, a de Marco Bertaiolli. Ambos se elegeram prefeitos da cidade.

 

Melo mudou a cara de Mogi

A Mogi das Cruzes dos anos 1.960 era uma cidade muito pacata. Para se ter uma ideia, a ida à Capital era uma aventura. Ou se ia de trem, da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil, ou encarava-se uma entrada sinuosa, cheia de problemas, e que cortava parte do Alto Tietê e bairros da zona leste: a antiga Estrada São Paulo-Rio, a SP-066. Ainda não existia a Mogi-Dutra, e muito menos a Rodovia Ayrton Senna.

Quando Melo decidiu ingressar na área educacional não apenas como professor, mas também como empresário, as coisas começaram a mudar na cidade. De desconhecida – pois quando se citava Mogi das Cruzes muitos confundiam com Mogi Guaçu ou Mogi Mirim (hoje Mogi das Cruzes é maior que as duas homônimas juntas), a faculdade começou a trazer muitos estudantes de outras cidades paulistas – e até de fora – para cá.

A partir de 13 de março de 1970, com a inauguração da Rodovia Índio Tibiriçá – ligando Suzano a São Bernardo do Campo e (Estrada Velha do Mar), e à Via Anchieta, centenas de jovens de Santos, São Vicente – tiveram a vida facilitada para ingressar na Omec e estudar em Mogi. Vale lembrar que na época havia trens de passageiros, mas o trajeto para quem vinha da Baixada Santista seria até o Brás, em São Paulo, em trens da antiga Estrada de Ferro Santos Jundiaí, e aí o transbordo, pela rua, para a Estação Roosevelt (na época conhecida como Estação do Norte),que fica ao lado, de ondem partiam os velhos subúrbios que tinham como ponto final Mogi das Cruzes.

E somente a partir de 10 de novembro de 1.976 é que foi inaugurada a Estação Estudantes, que desembarca os estudantes bem ao lado da UMC, na atual Linha 11–Coral da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos).

 

Os lamentos pela morte de Padre Melo

O prefeito de Mogi das Cruzes, Marcus Melo, expressou sua tristeza pela morte do ex-prefeito. “Com profundo pesar, recebo a notícia da passagem do Padre Melo ao plano espiritual. Homem inteligentíssimo, devotado ao bem-estar coletivo e de atuação acertada no poder público, ele deixa um legado de trabalho nas diferentes áreas do conhecimento humano, que enriquece Mogi das Cruzes e todos aqueles que tiveram o privilégio de conviver com ele”, disse Melo.

“A educação teve atenção especial do Padre Melo, que emprestou seu talento e dedicação para tantos avanços em prol dos mogianos e também dos estudantes da renomada Universidade de Mogi das Cruzes. Registro meu sentimento de eterna gratidão pelo tanto que fez pela Cidade”, destaca o prefeito.“Aos familiares e amigos, apresento as condolências e peço a Deus que conforte seus corações com a certeza da acolhida na Casa Celestial”, conclui.

Pelo Facebook, a sobrinha, professora Maria Beatriz Lobo, resumiu a importância de Padre Melo para Mogi das Cruzes.  “Existe uma Mogi das Cruzes antes e outra depois do meu tio, Padre Melo. Ele fez a diferença na vida de muita gente, inclusive na minha! Que ele receba todo o reconhecimento que merece.Descanse em paz! Estamos muito tristes.”

O médico Austelino Mattos, também pelo Facebook, postou: “Meus sentimentos ao homem que revolucionou a educação de Mogi das Cruzes e permitiu que nossa cidade fosse conhecida em todo Brasil.Padre Melo junto Valdemar Costa Filho,Júlio Simões representam os alicerces do desenvolvimento de Mogi das Cruzes.Vai deixar saudades.Obrigado Padre Melo.”

“Era um político que não pensava pequeno. Trouxe a faculdade de Mogi das Cruzes, que depois se transformou em universidade e virou referência formando muitas pessoas que conheceram Mogi ao estudar em nossa cidade. Fez o Ginásio Municipal de Esportes Hugo Ramos e colaborou muito com o desenvolvimento do município. Foi um grande líder. Meus sentimentos à toda a família e a filha Regina”, publicou em seu perfil o vereador Antonio Cuco Pereira.

A direção do Condemat (Consórcio de Desenvolvimento dos Municípios do Alto Tietê), emitiu nota lamentando a morte do Chanceler da UMC. “Conhecido como Padre Melo, deixa um legado para a educação de Mogi das Cruzes e de toda a Região, tendo sido um dos grandes responsáveis pela evolução e referência que o Alto Tietê tem no setor educacional.

Na política também foi um dos grandes defensores dos interesses das cidades da Região e muito ajudou no desenvolvimento do Alto Tietê.

Para a filha Regina Melo, netos e demais familiares, a certeza de que Padre Melo deixa uma trajetória de grande contribuição para a história da nossa Região”, diz a nota.

                                   Foto: Reprodução

NOTA DA REDAÇÃO – Santista de nascimento, eu, Paulo Sérgio do Vale Quaresma, fazia o trajeto inverso durante as férias escolares: enquanto muitos desciam a Serra do Mar, em direção a Santos, eu subia, para passar essa época na casa dos meus padrinhos Elza e José Pedro Naure, o Zé Turquinho. Além de minha madrinha, ela era também minha tia, irmã do meu pai, e foi a primeira da família a vir para cá e nos apresentar à cidade. E eu fui criado, parte da vida, pela sua mãe.

Mogi das Cruzes era pacata. Lembro-me da Rua Capitão Manoel Caetano, ainda de chão batido – mas não era terra vermelha, e uma espécie de areia, que facilitava nossos jogos de futebol, com o devido cuidado para que o seu Valentin, o juiz de menores da época, não nos flagrasse e levasse a bola embora.

A Rua Navajas não era do tamanho atual. Tinha poucos quarteirões. O restante, onde hoje está uma clínica infantil e o edifício Isidoro Boucault, era Rua Prudente de Moraes. Não havia nada em frente a praça do Shangai, além de ruínas da Igreja de Iá Iá, onde hoje está o prédio sede da Prefeitura de Mogi. Todo o restante era mato e barrancos, que ia até o Socorro.

Era muito bucólico e tranquilo o cenário daquela Mogi. Quando eu voltava para Santos, e contava isso aos meus colegas de escola, ninguém sabia o que era ou muito menos onde ficava Mogi das Cruzes. Citavam Mogi Guaçu ou Mogi Mirim.

E esse desconhecimento se arrastou pelo restante da minha infância e início da adolescência. Até que surgiu a OMEC, depois UMC, e vários colegas e amigos que lá na Baixada desconheciam Mogi, agora não só conheciam como estudavam em Mogi. A maioria morava em repúblicas estudantis e aos poucos a Mogi desconhecida suplantava as homônimas, de todas as formas.

Muito tempo depois tive consciência que um dos pilares para essa mudança completa da então pacata até demais Mogi das Cruzes era aquele padre que celebrava missas e falava a linguagem dos jovens da época, Padre Melo. Ele literalmente colocou Mogi das Cruzes no mapa.