Idosos com pouca massa muscular correm maior risco de morte, diz estudo

 

DE CAMPINAS – Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um estudo conduzido pela enfermeira Mariana Mapelli de Paiva, do programa de pós-graduação em Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), analisou as causas de ocorrência de quedas em idosos e o impacto na qualidade de vida nesse grupo.

Vale destacar que a pesquisa analisou dados de 986 idosos acima de 60 anos que participaram do Inquérito de Saúde de Campinas (ISACamp), realizado pelo Centro Colaborador em Análise de Situação de Saúde entre os anos de 2014 e 2015, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

A orientadora é a professora Marilisa Berti de Azevedo Barros, que também coordenou o ISACamp. “O crescente envelhecimento da população brasileira traz sérios desafios a serem enfrentados. Entre eles, está a elevada ocorrência de quedas em idosos propiciadas por diversas alterações fisiológicas que afetam a estabilidade corporal e por múltiplos fatores individuais e ambientais”, explica Mariana Mapelli de Paiva.

 

Ocorrências

Segundo os dados da tese “Quedas, condições de saúde e qualidade de vida em idosos: estudo de base populacional de Campinas, São Paulo”, 17,1% dos idosos da cidade sofrem quedas em um período de 12 meses. A ocorrência foi maior no sexo feminino e aumentou com a idade, atingindo 23,7% nos idosos com 80 anos ou mais.

“A ocorrência de quedas é 55% maior nos idosos que têm deficiência auditiva. Os acidentes também foram mais frequentes no grupo que apresenta dependência em ações básicas, como tomar banho, vestir-se, comer, e atividades instrumentais de vida diária, como usar transportes, fazer compras d preparar refeições”, afirma Margareth Guimarães Lima, pesquisadora do Departamento de Saúde Coletiva da Unicamp e coautora dos artigos.

Ao analisar as condições de saúde dos idosos e a associação com a ocorrência de quedas, as pesquisadoras verificaram que a prevalência de quedas cresceu com o aumento do número de doenças crônicas e de problemas de saúde relatados, sendo maior entre os idosos com artrite, reumatismo e artrose, enxaqueca ou dor de cabeça, dor nas costas, alergias, problema emocional e tontura ou vertigem.

 

Qualidade de vida

A pesquisadora Mariana Mapelli de Paiva usou o questionário conhecido como The Medical Outcomes Study 36-Item Short-Form Health Survey (SF-36) para analisar o impacto das quedas na qualidade de vida relacionada à saúde.

As perguntas adotam dimensões para avaliar a percepção sobre qualidade de vida. Idosos que sofreram três ou mais quedas apresentaram declínios em seis dimensões da qualidade de vida: capacidade funcional, aspectos físicos, dor, aspectos emocionais, aspectos sociais e saúde mental. Já os idosos que sofreram uma ou duas quedas tiveram prejuízo apenas no domínio de dor.

O estudo apontou que acidentes decorrentes de tontura ou desmaio levaram a prejuízos de qualidade de vida de maior magnitude em relação àquelas provocadas por escorregão ou tropeção.

“Outro resultado interessante foi que não detectamos uma relação entre a prevalência de quedas e o nível socioeconômico, mas observamos que o impacto da queda na qualidade de vida e no bem-estar aconteceu apenas nos idosos com menor nível de escolaridade e menor renda mensal per capita”, completa Margareth Guimarães Lima, que integra o mesmo grupo de pesquisa de Mariana Mapelli de Paiva.

 

Prejuízos

Ao analisar a associação da ocorrência de queda com a qualidade de vida relacionada à saúde dos idosos em segmentos demográficos e socioeconômicos diversos, a pesquisadora verificou que a ocorrência de queda não resultou em prejuízo da qualidade de vida de idosos do sexo masculino com menos de 75 anos e maior escolaridade e renda. Já os idosos do sexo feminino com menor renda que sofreram queda apresentaram prejuízos de capacidade funcional, aspectos físicos e dor.

“Indivíduos de ambos os sexos que tinham 75 anos ou mais e menor nível de escolaridade, além de apresentarem prejuízos de capacidade funcional, aspectos físicos e dor, também apresentaram prejuízos em aspectos emocionais e na saúde mental”, revela Mariana Mapelli de Paiva.

Os achados de prevalência de quedas em relação às condições de saúde possibilitaram identificar os segmentos de idosos mais propícios a quedas. A pesquisa mostrou também que é relevante considerar o tipo e as características das quedas sofridas, no sentido de avaliar melhor os riscos de novos acidentes e procurar reduzir o impacto na qualidade de vida do grupo.

“Nesse sentido, é importante de considerar os tipos de doenças crônicas e de problemas de saúde do idoso, assim como a presença de deficiências funcionais, no sentido de buscar reduzir a ocorrência de quedas. Essas informações destacadas na pesquisa servem de orientações para idosos, familiares e cuidadores”, completa a enfermeira.

“Temos desenvolvido essas pesquisas de cinco em cinco anos, com recursos da Fapesp, do Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento (CNPq), do Ministério da Saúde e com apoio da Secretaria de Saúde do município de Campinas. Nosso maior desafio são os recursos que, se mantidos, nos permitirão dar continuidade e monitorar a saúde da população no decorrer do tempo”, alerta Margareth Guimarães Lima.

 

Veja reportagem do Jornal da Record sobre essa pesquisa