A Forma da Água vence como melhor filme. Veja os resultados do Oscar 2018

Por André Dick

Melhor filme

Quando a dupla de Bonnie e Clyde Faye Dunaway e Warren Beatty voltou a subir ao palco para a entrega do prêmio de melhor filme, uma justa homenagem de reparação da Academia, as apostas estavam concentradas em três filmes: A forma da águaTrês anúncios para um crime e, em razão do resultado do Independent Spirit Awards, Corra! Antes das premiações de início de ano um dos favoritos, Lady Bird – A hora de voar ficou em segundo plano.
Gosto tanto da seleção do Oscar deste ano quanto a do ano passado. Há uma obra-prima (Trama fantasma), três filmes excelentes (Lady Bird, A forma da água e Três anúncios para um crime), um muito bom (Corra!) e um historicamente interessante e bem interpretado (O destino de uma nação). Não sou apreciador, no entanto, de Dunkirk, The Post – A guerra secreta e de Me chame pelo seu nome.  Eu teria substituído esses três filmes por Blade Runner 2049De canção em canção e Projeto Flórida, e acrescentaria um décimo: Todo o dinheiro do mundo ou Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi. Como Blade Runner 2049, por exemplo, não chegou à média para ser indicado na categoria principal tendo ganho 2 Oscars?

Dos indicados a melhor filme, A forma da água saiu com 4 prêmios, Dunkirk com 3, O destino de uma nação e Três anúncios para um crime com 2 e Corra!Trama fantasma e Me chame pelo seu nome com 1 Oscar cada.

Veja o trailer legendado de A FORMA DA ÁGUA

 

Desde Birdman, em 2015, o escolhido em melhor filme não vencia também o Oscar de direção. E justamente com outro mexicano, Alejandro G. Iñárritu; desta vez foi Guillermo del Toro. E importantíssima a vitória de A forma da água: é o único filme de fantasia a ganhar o Oscar principal ao lado de O senhor dos anéis – O retorno do rei, este em 2004, na história da Academia de Hollywood.
A ordem dos meus preferidos a melhor filme era a seguinte:

A apresentação de Jimmy Kimmel foi muito melhor do que a do ano passado. Como homenagem aos 90 anos da premiação, houve várias seções com imagens de filmes que participaram ou não do Oscar ao longo desse tempo. Incluiu-se um belo in memoriam a artistas da indústria que faleceram, ao som de Eddie Vedder, encerrado com imagens de Jerry Lewis. Kimmel suscitou o caso Harvey Weinstein, sendo sucedido por lembranças aos movimentos Me Too e Time’s Up por meio de apresentadore(a)s e sobre imigrantes, nas falas de Lupita Nyong’o, Kumail Nanjiani e Del Toro. Igualmente, Kimmel fez várias referências ao sucesso do filme Pantera Negra. E, nos agradecimentos, foram especiais os de James Ivory (roteiro adaptado), Gary Oldman (ator), Frances McDormand (atriz) e Roger Deakins (fotografia). Del Toro fez uma homenagem singela a Spielberg, mas este parecia ainda impactado pelas poucas chances de The Post. Entre os apresentadores especiais, destaques para Mark Hamill, BB8 e Maya Rudolph. Entretanto, para uma festa em que as mulheres tiveram especial atenção, o Oscar foi pouco afeito a premiá-las. Greta Gerwig (que parecia a única na plateia realmente emocionada pela indicação, ao lado do marido, o cineasta Noah Baumbach) não ter recebido um sequer aceno para seu Lady Bird – o único a não ganhar um Oscar entre os indicados a melhor filme ao lado do fraco The Post – marca o Oscar 2018 como aquele em que “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.

Melhor direção

Guillermo del Toro sempre teve seu nome associado a fantasias soturnas, como O labirinto do fauno A colina escarlate. Também fez dois filmes para uma franquia (Hellboy), uma fantástica homenagem a monstros e robôs (Círculo de fogo), entre outros, além de ter ajudado a escrever, por exemplo, a trilogia O hobbit. Depois dele, possivelmente Jordan Peele e Greta Gerwig concorriam mais ao prêmio, por Corra! e Lady Bird, respectivamente, estreia de ambos na direção. Christopher Nolan fez um trabalho elogiado por Dunkirk, mas ele não havia sido indicado por trabalhos superiores (a trilogia Batman Interestelar). Indicado antes por Sangue negro a melhor diretor, Paul Thomas Anderson concorria por Trama fantasma e merecia ganhar.

Melhor ator

Gary Oldman, apontado sempre como o favorito, ganhou por sua personificação de Winston Churchill em O destino de uma nação. Como no ano passado, Denzel Washington perdeu por Roman J. Israel, esq. (no qual está ótimo); ele ganharia o terceiro Oscar, depois de Tempo de glória e Dia de treinamento. Já Daniel Day-Lewis, por Trama fantasma, corria por fora, mesmo com três Oscars no currículo (Meu pé esquerdo, Sangue negro e Lincoln). Surpreendente a indicação de Timothée Chalamet por Me chame pelo seu nome, num papel bastante superstimado. Daniel Kaluuya tem bela atuação em Corra!, mas não sei se comportaria uma indicação.

Melhor atriz

Depois de ganhar um Oscar por Fargo, dos irmãos Coen, em 1997, Frances McDormand voltou ao palco por Três anúncios para um crime. É uma bela atuação, mas quem possivelmente merecia mais é Sally Hawkins, de A forma da água, cuja atuação em Maudie – Sua vida e sua arte também é brilhante. Saoirse Ronan aparece muito bem em Lady Bird, ainda que suas chances tenham diminuído muito com as premiações pós-Globo de Ouro. Margot Robbie é ótima atriz, o que já provou em O lobo de Wall Street, no entanto não merecia estar entre as indicadas por Eu, Tonya. E, principalmente, Meryl Streep. Seu papel em The Post – A guerra secreta só justifica uma indicação por quesitos extra-artísticos. Lembremos as atrizes que ficaram de fora: Jennifer Lawrence (mãe!), Sareum Srey Moch (Primeiro, mataram o meu pai), Rooney Mara (Una ou De canção em canção), Emma Stone (A guerra dos sexos), Danielle Macdonald (Patti Cake$), Alexandra Borbély (Corpo e alma), Daniela Vega (Uma mulher fantástica), Haley Lu Richardson (Columbus), Nicole Kidman (O sacrifício do cervo sagrado e O estranho que nós amamos), Vicky Krieps (Trama fantasma), Michelle Williams (Todo o dinheiro do mundo), Jessica Chastain (A grande jogada) e Brooklynn Prince (Projeto Flórida).

Melhor ator coadjuvante

O grande favorito Sam Rockwell levou o prêmio com Três anúncios para um crime, superando o companheiro de elenco Woody Harrelson e outros grandes intérpretes: Christopher Plummer (Todo o dinheiro do mundo), Willem Dafoe (Projeto Flórida) e Richard Jenkins (A forma da água).

Melhor atriz coadjuvante

Talvez na premiação mais injusta da noite, Allison Janney, habitualmente ótima, recebeu um Oscar inexplicável por seu papel unidimensional e com overacting em Eu, Tonya. Ela ganhou de atuações excelentes: Laurie Metcalf (Lady Bird), Mary J. Blige (Mudbound), Lesley Manville (Trama fantasma) e Octavia Spencer (A forma da água).

Melhor roteiro original

Jordan Peele recebeu o Oscar por Corra! No entanto, fez com que Greta Gerwig saísse do Oscar sem prêmio algum por Lady Bird, uma injustiça da Academia, como já observado. A forma da água ficou inviabilizado nessa categoria depois de processo por plágio e Três anúncios para um crime era outro favorito que não confirmou.

Melhor roteiro adaptado

O agradecimento de James Ivory, diretor de filmes como Vestígios do dia e Retorno a Howard’s End, foi tão emocionante ao ganhar o prêmio pelo roteiro adaptado de Me chame pelo seu nome que me fez esquecer o quanto Aaron Sorkin merecia por A grande jogada. Outro trabalho excepcional da categoria era o de Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi, escrito por Virgil Williams e Dee Rees.

Melhor animação

Viva – A vida é uma festa, da Disney/Pixar, era o grande favorito e cumpriu a expectativa, deixando em segundo plano Com amor, Van Gogh e The breadwinner.

Melhor filme estrangeiro

Antes das indicações, o favorito era o alemão Em pedaços. Ele caiu entre os pré-finalistas e passou o bastão para The Square – A arte da discórdia, vencedor do Festival de Cannes. No entanto, Uma mulher fantástica, do Chile, foi o premiado, ficando à frente, também, dos comentados Sem amor (Rússia) e Corpo e alma (Suécia), este vencedor do Festival de Berlim. É uma grande obra, com ótima atuação de Daniela Vega, trazendo um suspiro para o cinema da América Latina. O Brasil já deveria ter ganho um Oscar da categoria por Central do Brasil ou Cidade de Deus (não indicado a filme estrangeiro, mas a quatro Oscars no ano seguinte de seu lançamento) e nesta década já foi esquecido de forma significativa pela obra-prima O som ao redor, sequer indicado. Neste ano, Bingo – O rei das manhãs foi escolhido de maneira equivocada para representar o Brasil (não tem o estilo requisitado, apesar da excelente atuação de Vladimir Brichta), quando os candidatos poderiam ter sido O filme da minha vida ou As duas Irenes.

Melhor documentário em curta-metragem

Heaven is a traffic jam on the 405

Melhor documentário em longa-metragem

Icarus

Melhor curta-metragem

The silent child

Melhor curta em animação

Dear basketball

Melhor fotografia

O britânico Roger Deakins finalmente vence, em sua 14ª indicação, por Blade Runner 2049, mostrando um trabalho de cores e luzes praticamente insuperável, sem querer apenas imitar a estética do original de Ridley Scott. Ele superou outros fortes candidatos, como Hoyte Van Hoytema por Dunkirk, Dan Laustsen, por A forma da água e Rachel Morrison por Mudbound, esta a primeira mulher indicada na categoria. Talvez os trabalhos de fotografia que poderiam ter rivalizado com Blade Runner 2049 sejam os de Trama fantasma, feito pelo próprio diretor, Paul Thomas Anderson, que não se creditou, e De canção em canção, do já oscarizado três vezes Emmanuel Lubezki, sempre esquecido por suas parcerias com Terrence Malick depois de A árvore da vida.

Melhor trilha sonora

Depois de vencer por O grande Hotel Budapeste, o francês Alexandre Desplat voltou ao palco para receber o novo prêmio por A forma da água, embora Jonny Greenwood tenha composto uma trilha memorável para Trama fantasma.

Melhor canção original

“Remember me”, de Viva – A vida é uma festa, escrita por Kristen Anderson-Lopez e Robert Lopez, já era a esperada vencedora. As apresentações das candidatas foram muito boas, principalmente as de “Mighty river” (Mudbound) e “This is me” (O rei do show).

Melhor edição

Lee Smith recebeu o prêmio por Dunkirk. No ano passado, outro filme de guerra havia vencido na categoria, Até o último homem. Smith superou fortes concorrentes, como A forma da águaTrês anúncios para um crime e Em ritmo de fuga.

Melhor figurino

Mark Bridges recebeu o prêmio, merecido, por Trama fantasma. É seu segundo Oscar, depois de O artista, e trata-se de um trabalho refinado do habitual colaborador de Paul Thomas Anderson, reconstituindo-se o vestuário dos anos 50 com designs criados especialmente pelo estilista feito por Day-Lewis.

Melhor design de produção

Paul D. Austerberry, Jeffrey A. Melvin e Shane Vieau receberam o prêmio por A forma da água, embora os trabalhos de Blade Runner 2049 e A bela e a fera fossem ótimos. O trabalho extraordinário de Trama fantasma não chegou a ser indicado.

Melhor maquiagem e cabelo

Kazuhiro Tsuji, David Malinowski e Lucy Sibbick foram os vencedores por O destino de uma nação.

Melhor mixagem de som

Mark Weingarten, Gregg Landaker e Gary A. Rizzo ganharam por Dunkirk, superando os trabalhos elogiados de Em ritmo de fuga e Star Wars – Os últimos Jedi e a excelência de Blade Runner 2049.

Melhor edição de som

Alex Gibson e Richard King receberam o prêmio por Dunkirk, superando os competitivos Blade Runner 2049 e Em ritmo de fuga.

Melhores efeitos visuais

John Nelson, Paul Lambert, Richard R. Hoover e Gerd Nefzer venceram o Oscar por Blade Runner 2049, superando o favoritismo de Planeta dos macacos – A guerra e a competência técnica de Star Wars – Os últimos Jedi. Uma homenagem também aos técnicos que realizaram a primeira parte em 1982, um marco da ficção científica.